Por Rodrigo Machado / Fotos: Fabio Aro
Transições são sempre complicadas. Pegue um adolescente. Em poucos anos ele deixa de ser uma grande criança e se torna um pequeno pentelho, irritadiço e quase sempre incoerente, que vive fazendo besteira. Mas nesse período complexo para todos – principalmente para os outros – é que ele forma seu caráter. O carro que você leva para casa, é claro, não fica mais maduro com o tempo. Mas os fabricantes passam a vida aprimorando modelos e versões. Motivados pelo lançamento do novo Renault Sandero, juntamos cinco hatches compactos bem equipados para descobrir se, entre os carros, abandonar a infância também pode ser complicado e, em alguns casos, temerário.
5º RENAULT SANDERO
Desde que surgiu para o mundo, no fim de 2007, o Sandero nunca passou por uma evolução tão profunda. Foi como a criança que se forma no Ensino Fundamental, passa a ter mais responsabilidades e começa a se preocupar com o que vai fazer da vida. Até se apresenta melhor agora. A plataforma ainda é a mesma, mas o pessoal de design da Renault trabalhou duro e mascarou muito bem a idade do projeto por fora. As mudanças são muito semelhantes as do irmão Logan, com logotipo destacado, faróis mais finos e lanternas quadradas. O resultado é um carro com ar moderno e bem resolvido. É como se a fase das espinhas na cara já fosse coisa do passado.SARCÓFAGO
O mesmo acontece na cabine que finalmente ganhou um desenho feito para esta década. É lá dentro, aliás, que o hatch realmente quer mostrar que está mais maduro e pronto para ser levado a sério. O acabamento interno melhorou bastante e se distanciou daquele ambiente rústico que parecia ser capaz de suportar um ataque nuclear – mas que era tão sofisticado quanto um sarcófago. Há até opção de ar-condicionado automático e sistema de entretenimento com GPS, em um pacote que custa R$ 1.400 e que deve estar em 75% dos carros. A configuração mais equipada, a Dynamique, deve representar 30% das vendas, mais que o dobro do que vendia no Sandero antigo. Mais uma prova de maturidade.Ao menos, segue como a maior coisa que você pode comprar neste segmento. O espaço interno é ótimo para pernas, ombros, cabeça e qualquer tralha que você queira levar com você. O porta-malas de 320 litros também é o maior da categoria.
DO TEMPO DO FARAÓ
Se o Sandero está mais agradável para quem vê, o mesmo não se diz para quem acelera. O 1.0 16V ganhou algumas atualizações para render 80 cv. Já o 1.6 8V – que deve vender pouco mais da metade – é o mesmo, com 106 cv e 15,5 kgfm de torque com etanol. A Renault justificou que seus motores, apesar de terem potência baixa, têm torque no nível da concorrência. Mas em um segmento em que o prazer de guiar é importante, acaba sendo um comportamento imaturo.renault sandero
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+ Espaço, design, espaço. E... espaço
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- Motor antigo e ergonomia ruim
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= Se você compra carro por metro, taí sua escolha
Essa versão Dynamique 1.6 8V custa R$ 42.390 mil. Mas por esse preço, você consegue carro que lhe trata melhor. O Sandero nunca vai superar o fato de que nasceu para ser o carro mais barato da Europa. Ele é como o aluno que pulou uma série: é competente, só que ainda não está no mesmo nível dos companheiros de classe.
4º CITROËN C3
O C3 foi um dos sujeitos que inventou esse negócio de compacto premium no Brasil, em 2003. A propósito, na época, nenhum oponente deste comparativo era nascido. Há dois anos, ele foi à França, visitou um outlet e voltou renovado. Mudou de geração. E a experiência fez bem ao Citroën. O novo C3 intensificou aquilo que sempre soube fazer: bom acabamento e muitos equipamentos. Mas não se livrou de um velho trauma de infância - sua mecânica.Citroën C3
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+ Acabamento e para-brisa panorâmico
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- Conjunto mecânico é seu trauma de infância
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= A vista é boa. E à vista é o mais barato
Na pista ele foi mal. O 1.5 de 93 cv sofreu para manter o C3 no ritmo dos demais. Pelo menos, explorar o motor é prazeroso. Há maciez em giros altos, exatamente onde o 1.5 melhor se comporta. E ele ainda manda bem no consumo de combustível. Já o câmbio está longe de ser uma referência por aqui. Mas, convenhamos, os franceses já estiveram bem piores neste quesito.
TEMPOS DE 4G
Mas ninguém nunca comprou o C3 por sua disposição de deixar marcas de borracha no asfalto ou impressionar a mulherada com um preparo físico de atleta, certo? Quem busca o Citroën está preocupado com a beleza interior e a personalidade francesa. E aí, ele não decepciona. O acabamento está entre os melhores do segmento, com plásticos de boa qualidade e um monte de cromadinhos salpicados pelo painel e console. O sistema de entretenimento é completo, só que os comandos são pouco intuitivos.O legal mesmo é o para-brisa panorâmico Zenith (de série nesta versão) que vai até o meio do teto. A imensa área envidraçada até muda a maneira como você dirige. É de fazer um adolescente dispensar o celular e ficar curtindo a vista ao redor. Coisa rara em tempos de 4G.
3º PEUGEOT 208
Todo polido, com opiniões convictas e diferentes que ninguém mais tem, mas com medo de ser radical ao extremo. O Peugeot 208 é um jovem que estuda em colégio europeu. Dê uma olhada nas notas de Veículo, na tabela. Ele foi o melhor com sobras. Mas ficou lá embaixo quando juntamos a avaliação do que ele é com a do que ele poderia ser. Está aí a sina do 208: uma bela opção para quem não faz questão de andar tão rápido.TETO DE VIDRO
Seu desenho é o mais atual dos cinco, sem falar que, como não vende tanto assim, não está espalhado pela vizinhança. Pelo que se pode perceber, a qualidade de montagem e a escolha de materiais também está acima dos rivais. Avaliado na versão Allure 1.5, de R$ 49.690, o Peugeot é o único a trazer um teto de vidro e só se difere da versão topo de linha, a Griffe, pelas rodas menores e pela ausência de leds na dianteira. Na cabine a situação melhora ainda mais.PETER PAN
Assim como Sandero e C3, o 208 tem central de entretenimento. Só que nele o monitor é sensível ao toque e está melhor encaixado no painel. Também é mais fácil de usar. Já o cluster, que se vê por cima do volante e não por dentro dele, é o único com velocímetro analógico e digital. Mostrar o interior do Peugeot 208 para outro dono de compacto é o mesmo que aparecer no recreio do colégio com um novo video-game portátil. Impressiona demais e faz você se sentir especial.Peugeot 208
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+ O mais evoluído
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- Motor e câmbio não acompanham o ritmo
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= Poderia ser melhor do que realmente é
É um grande desperdício porque parece que todo o resto do carro foi pensado para um comportamento muito mais rebelde. Os pedais, por exemplo, são bem juntinhos, ótimos para um punta-tacco. E ainda há o volante de raio pequeno que faz você se sentir um piloto de rali mesmo quando está manobrando na garagem. Com um potencial desses, o 208 só precisa esquecer a Síndrome de Peter Pan e realmente crescer. De repente com a versão GT, de motor turbo e 165 cv, que estará no Salão em outubro e nas lojas no ano que vem, ele possa se sentir, finalmente, completo.
2º FIAT PUNTO
O Punto é o repetente de ano nesta turma. E como qualquer um nessa situação, se aproveita de ser maior, mais velho e mais forte que os concorrentes. E foi exatamente assim que ele conseguiu o segundo lugar: na marra. Graças ao motor 1.6 16V de 117 cv e 16,8 kgfm de torque, cravou os melhores números na pista, mesmo sendo o mais pesado. Freou melhor que os outros também. Nos testes, só perdeu pontos pelo consumo e pelo alto ruído interno – fruto do projeto já antigo.MONTANHA-RUSSA
Longe da frieza dos números, o Punto é o melhor de guiar. É estranho qualificar assim um Fiat, geralmente conhecidos por injetar em você a emoção de um carrossel. Mas não demora muito a perceber que o Punto tem direção exata, com volante de ótima pegada, suspensão calibrada com eficiência, além de um motor que gosta de gritar – e nós adoramos isso. Já a transmissão é mais respeitosa com a tradição da marca. Ela apresenta a mesma precisão de uma baliza feita após três voltas de montanha-russa...Fiat Punto
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+ Anda bem e adora uma serrinha
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- Projeto antigo e opcionais
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= A escolha de quem compra carro pelo motor
Faltam, no entanto, equipamentos mais modernos. O rádio é à moda antiga e hoje faz só o básico. Nada de GPS, monitor sensível ao toque ou DVD. Tudo é feito em teclas pequenas e visualizado em um visor menor ainda.
Mas o grande descuido do Punto é o quanto ele acha que vale. O preço inicial é bom, R$ 46.740, só que a lista de opcionais é maior que as desculpas por uma nota ruim na prova. Vidros elétricos traseiros, volante multifuncional, Bluetooth, sensor de estacionamento, rodas de 16 polegadas e banco traseiro bipartido elevam o preço do carro testado para mais de R$ 52 mil. Quer um Punto mesmo assim? Esqueça os opcionais e pegue o básico.
1º FORD NEW FIESTA
Queridinho da professora, mais popular da turma e adorado pelas meninas. A vida do New Fiesta está moleza. Ele lidera com facilidade o segmento e ganha a maioria dos comparativos. Aqui, não foi diferente. O Ford não tem o melhor preço, nem o espaço interno que a sua família quer, tampouco acelera feito um adolescente jogando Gran Turismo, mas cativa pelo equilíbrio de forças.VELHO OESTE
Junto do Peugeot, é o que tem mais estilo por dentro e por fora. Em comparação com o 208, no entanto, deve capricho na cabine. As peças têm encaixe irregular e os plásticos são duros demais. O rádio, por sua vez, parece ter saído de algum filme de velho oeste. É bonito e tal. Porém, é extremamente confuso com muitos botões e tela minúscula. Para piorar, o volante rejeita ter qualquer comando auxiliar. Se acostumar a usar ele é como conviver com herpes. Você pode até aprender a escondê-la, mas seria melhor se não tivesse.Você esquece tudo isso quando vira a chave. A posição de dirigir é – com sobras – a melhor que o dinheiro compra nessa faixa. Os bancos lhe deixam bem acomodado e seguram o corpo nas curvas, coisa que nenhum outro rival é capaz de fazer tão bem. O espaço atrás é aceitável, desde que você não tenha três adolescentes em casa.
Ford New Fiesta
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+ Motor, câmbio, direção e suspensão
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- Interior merecia mais capricho
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= Equilíbrio de carro médio
A suspensão é na medida e dá segurança e conforto, enquanto o câmbio é o mais justo dos cinco. Andar no New Fiesta é uma experiência em que você raramente vai encontrar erros. Ele é preciso e certeiro.
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